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Para que eu me lembre...

...de não ser mosca.



"Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida."

Manoel de Barros

Sonho escocês.

                                         Ilustração: Elefante Verde


Eram dois, um em cada lado dos muros do castelo.
Lá em cima da torre alta, ela cantava olhando o horizonte. Lá nos distantes vales, ele respondia.
Nunca seus olhos se encontraram. Um dia a distância morreu, caída, cansada de tanto ser falta.
E lá veio ele, violão no ombro, nos caminhos estreitos, cantando o encontro.
Ela, do alto da torre, viu a figura que vinha na estrada. Um estranho sorriso nasceu em seus lábios e ela soube que ele vinha chegando.
Ele, da terra, soltou o seu verbo. E ela do alto, voltou em rima.
Por cima dos muros , os dois se encontrando, mil notas planando, descendo, brotando...
E dizem que em noites de lua vermelha ainda se ouve seus cantos largados. São eles cantando por cima do muro. Ela na torre e ele na estrada.

Torto e flamejante.

Uma impossibilidade azul flamejante, uma fase inteira....
Vício irremediável que acelera involuntariamente uma ilusão consciente e gostosa, mas retarda o pensamento racional pra se fazer loucuras.
Crio mundos de beijos surdos e mãos desejosas. Transpiro álcool verde-água. Cílios. Calor tonto de um não saber fingido, do não, do total poder sobre tudo e sem noção.
Choques de irrealidade. Te tiro do mundo de fora e te traduzo em olhares molhados e brilhantes, conceitos libertinos, metáforas para me envolver com confusões necessárias para toda a aceitação absurda. Por que conquista tudo?
Encantamento em carne pura, brincadeira séria, palavras erradas e principalmente um transbordamento intenso de vida. Totalmente consciente e ingenuamente falso e torto.

Às vezes, Às vezes...

Eu dei. Eu dou. Eu gosto de dar. Presentes, sorrisos, bons assuntos. Adoro propiciar boas historias. Fazer pessoas rirem. Ou não: fazer as pessoas não acharem graça alguma. Perturbar. Surpreender. Fazer sofrer. Ora, eu dou. Dou, porque acho que vivo arte. Sou arte. Mesmo quando ninguém me vê. Uma mente fértil e ávida, ocasionalmente fascinada por imagens internas abstratas, inusitadas e secretas. Um coração desvairado que ainda não enjoou do excesso, da intensidade. Uma natureza despreocupada e fora de compasso com relógios e materialidades, mas que tenta perseverar em seus propósitos e preservar os seus princípios. Uma mulher de Áries com ascendente em Leão e Eneagrama tipo 4, ou seja, emotiva que focaliza a sensibilidade nas próprias necessidades e sentimentos. Atração pelo incomum, sensibilidade aguçada, refinado gosto artístico, gosto pelo drama, oscilando entre tragédia e fantasia. Um filme de Almodóvar em preto e branco. Uma pessoa que despreza e esnoba definições, por considerar a provisoriedade de tudo, mas que às vezes sucumbe perdida num hiato entre um instante e outro.

Isso tudo às vezes, às vezes...